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Éramos três irmãos adolescentes -   Vera, André e Fernanda - com, respectivamente, 15, 13 e 11 anos de idade, vagando soltos pela Europa, nas férias de início de ano, em 1978, em plena ditadura militar. Nosso pai tinha ficado no Rio, trabalhando, e nossa mãe nos acompanhava.  Mas ela não falava inglês e sabia muito pouco sobre História e Geografia.  De modo que éramos nós três quem guiávamos a viagem, munidos de um Eurailpass de 2 meses, que nos permitia viajar de trem por 13 países europeus, independentes e  fora de qualquer pacote ou excursão.


Passados 34 anos (2012), finalmente consegui reunir os registros sobreviventes desta aventura:  os diários que escrevi, muitas das fotos que tiramos e os filmes Super 8, que André fez.  Eram rolinhos de filmes mudos, em Ektachrome ou Kodachrome, a que nós 3 dedicamos um bom tempo, depois da viagem, editando e montando.  Cortávamos os trechos com tesoura, colávamos com durex e depois realinhávamos as perfurações com alfinete.  Uma vez o filme pronto, montamos uma trilha sonora em cassette com trechos de rock progressivo e sincronizávamos as duas coisas durante a projeção para os amigos.


Estes filmes estiveram esquecidos e só agora puderam ser convertido para o digital.  Consegui recuperar a trilha sonora original e sonorizar o material, mas não alterei em nada a edição que fizemos.


Quanto às fotos, tive que recorrer ao Photoshop para recuperar contraste e rebalancear luminosidade, pois já estavam bem esmaecidas.  E quanto aos diários, vou transcrevê-los fielmente, mas acredito que um comentário introdutório seja imprescindível em algumas entradas.


Ao rever todo este material, em conjunto, me surpreende constatar a intensidade de nossos olhares.  Mas, particularmente, me comove o olhar deste meu irmão, morto aos 23 anos, em 1987, mas que nesta viagem em 1978, tinha apenas 13 anos.  Ele já percebia o mundo como o geógrafo que mais tarde se tornaria, sempre atento à paisagem urbana e topológica.  Mas juntos e cada um a seu modo, nós 3 somávamos uma grande alegria e seriedade, que se expressava em nossa avidez em sorver a imensidão daquele mundo novo, daquela civilização tão mágica e  antiga, que se descortinava diante de nossos olhos, a cada dia. 


Pretendo neste blog fazer um primeiro registro e compartilhamento com alguns amigos selecionados deste trabalho de "restauração e resgate de afetos juvenis", expondo, pela primeira vez, o filme, as fotos e os diários.  Mais tarde, pretendo publicar mais amplamente estas relíquias.

É a maneira que encontrei de homenagear André e todos os adolescentes de todas as idades, que, como ele, souberam manter viva a chama da intensidade e do desejo de estar sempre descobrindo e explorando mundos possíveis.  Sempre.


VeraLimaCeccon, Rio de Janeiro, julho de 2012